terça-feira, 18 de julho de 2017

Nós.

boy
ao som de: The night we met ( só clicar no nome para ouvir)

E então me pediram para escrever sobre nós. (Eu disse que hoje era o meu dia de folga, mas insistiram tanto, que meus dedos acabaram por render-se ao teclado e aqui estou.)
Hoje é o meu dia  de folga e aposto que o Gregor Samsa me apoiaria a desfrutar dele. A propósito, sobre o Gregor, porque o Kafka não escolheu outra coisa para ele se tornar? Por que aquele bicho estranho e desengonçado? Será que é naquilo que a nossa alma se torna quando a rotina nos absorve? Talvez.
Sobre nós, o que eu posso escrever a respeito? Acho que os nós são o avesso dos eles. Também são laços fracassados. É mais que um plural.
Nós confronta eu. Ou completa? Confronta, porque eu sou sozinho. Nós não somos sozinhos, o nós é junto, é quente e aconchegante, que nem casa de mãe.
. Ah Quintana, eu queria você me explicando sobre o nós e que essa cadeira não pegasse embalo tantas vezes sozinha, não é sobre a saudade hoje que eu queria aprender, é sobre o nós.
Eu acho que no nós há flores, mas também tem espaço suficiente para muitas pedras que cortam quando pisadas. No nós tem tanto espaço que eu posso falar de território, que vincula, prende, sustenta a minha história e a sua, porque o nós é uma caixa aberta que nos cabe e nos faz caber.
No nós tem nudez porque a verdade pega as nossas roupas na porta, é um paraíso intocável, onde a gente não pode sujar, por isso o zelo, pra que com nosso desjeito não deixemos mais marcas do que as necessárias.
O nós é solo sagrado que só pode pisar quem entende quem é o seu eu. Se alguém violar isso, destrói o encanto, e aquele guarda roupa incrível que nos leva à Nárnia, acaba sendo só um guarda roupa, sem graça e cheio de coisa velha que ninguém quer mais.
O Gregor não entendeu quem era no eu, não se reproduziu no nós e por isso virou aquele bicho horrível, Kafka subliminarmente nos fala sobre o nós. As flores, seus insetos e pássaros que as beijam também falam do nós. Não há como falar em território sem a consciência do elo que o nós impõe. A saudade do Quintana derrama no nós. O guarda roupa mágico não existiria se Lewis não quisesse falar do nós.
O Nós não é um laço fracassado, porque eu me esqueci, que o laço fracassado do Quintana não tem o s. Não é nós, é nó. Nó sufoca mesmo, agride, viola. O nós ao contrário liberta, alegra e traz a boa sensação de estar vivo.
O  nós não tem fórmula, tem gente dentro, tem que ter empatia, amor e respeito para funcionar. Eu gosto do nós.  Gosto do efeito dele e do seu significado que é complexo demais para o eu entender e explicar na sua solitude que é singular por si.


quinta-feira, 29 de junho de 2017

Fala pra ela que amor ela tem.

O vento sabe cantar. De vez em quando ele vem e assovia qualquer coisa melódica na minha janela como quem canta a canção da anunciação.
 O vento deveria saber falar também porque assim poderia me explicar as coisas sérias que as canções não podem tratar. Pois as canções tratam de coisas bonitas, podem até ser doídas, mas são bonitas; porque se pensar bem, a dor é bonita, porque a beleza aqui é sentimento e a dor é sentir de uma maneira tão profunda algo, e por isso eu a classifico como bonita.
 Mas apesar de ser bonita, nem sempre é séria. Geralmente as dores que as canções traduzem são sobre o coração, e nesse mundo maluco que vivemos as coisas do coração não são sérias, são no máximo bonitas ou doídas, mas nunca sérias.
Acho mesmo que o vento deveria aprender a falar ao invés de cantar, porque assim poderíamos conversar sobre coisas sérias, que as canções não podem tratar.
Se o vento pudesse falar eu gostaria de conversar com ele sobre a menina branca que amou aquele rapaz, mas ao final teve o coração partido. Todos sabemos que foi doído pra ela, mas ninguém a leva a sério, porque o amor não é tratado como algo sério aqui do lado de fora.
Eu pediria o vento para dizer a ela que eu sei o que ela está sentindo, que compreendo que o mundo dela se quebrou em pedacinhos tão minúsculos que é praticamente impossível de os localizar embaixo dos móveis do quarto.
Que junto com os pedacinhos um pedaço bem grande dela também se foi, e dói, como dói, é uma dor que corta de novo e todo dia parece aumentar.
Ela também precisava ouvir que não a julgo caso tenha se rendido a ele, em nome do amor tantas coisas fazemos, o vento poderia dizer pra ela que eu gostaria de estar com ela agora e acariciar os seus cabelos, que não queria a ver chorar assim por ele, porque por mais clichê que pareça, vai passar!
Ah vento, você deveria entender que o amor é coisa séria e não se cura assim de um dia para o outro, você podia ir até lá e avisar para a branca que eu entendo e não a julgo, que virão outros amores maiores e melhores, e que desse ela deve carregar somente o riso e os suspiros.
A ferida vai fechar, ela queima mesmo, de vez em quando ainda vai sangrar, mas vai fechar, o tempo vai fazer isso.

Ah vento, fala pra ela só dessa vez que ela não está sozinha e que eu levo a sério sua dor, porque já doeu assim em mim;  que o amor é risco, uma hora ela acerta, só pede pra não sofrer demais porque amor ela tem, se não dele, de tantos outros meios, amor ela tem. 

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Sobre a casa verde

Hoje eu passei na porta da casa que minha avó morava. A casa ainda é verde, e eu quase a enxerguei saindo no portão com a mão na cintura e me olhando, como quem dizia, um oi tão saudoso que já me deixava feliz por estar ali.
Eu não pude continuar minha rota sem parar por alguns minutos e ficar encarando a casa, é como se ela ainda morasse ali, e eu estivesse apenas cumprindo mais um ritual de final de tarde, indo a ver e conversar sobre meu dia e saber do dela.
Ainda dá pra ver o pé de jabuticaba no fundo do quintal, onde eu cresci brincando de tantas coisas. A casa continua ali, na mesma esquina, do mesmo jeito. Mas ela não está mais aqui, já são três anos sem ela. Três anos sem ouvir a risada e nem as broncas, sem saber o que é ter alguém que me dê aquela segurança que só ela sabia dar. Eu sei que ela está com o Pai na eternidade, e isso é lindo sabe? Mas a saudade dói, porque minha avó era o elo mais forte que eu já tive com alguém, eu não sei explicar muito bem, mas ela me decifrava só com o olhar. É aquela espécie de amor de alma, que a gente não consegue muito bem entender, só sentir. Hoje especialmente doeu olhar para aquele lugar e encarar o vazio imenso que ela deixou em mim, em nós. E esse texto é só um desabafo mesmo e um alerta para quem às vezes se esquece que as pessoas são finitas, e que no céu não tem telefone. Eu não tenho foto dela comigo, nem acredito que ela esteja aqui comigo, nada disso; contudo eu tento a honrar ao máximo com minha memória, viver o legado da fé que ela me deixou e tentar ser uma mulher tão forte quanto ela. A saudade é um lugar que somente quem amou pode pisar, e hoje especialmente, eu me deixei preencher por ela... ao som de Pedro Valença, Saudade.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Sobre poesia, abelhas e a saudade.

(Era uma aula de História, Memória e cultura. Um tema que me agrada, mas nesse dia, mais interessante do que aula em si, eram as três abelhas que estavam na janela em cima do meu lugar. Elas estavam em um drama existencial, tão grave quanto o meu, por isso o poema.)

Poesia é estar tão perto, considerando o longe.
É valorizar as fronteiras, até que anulem os encontros.
Poesia não é círculo, é quadrado que separa, isola e obriga à solidão.
É gerar no ser a sensação de ser presa de.
É impor o peso do sentir.
E assim digo que poesia é o ato de eclodir a vulnerabilidade do ser, que apesar de velho, se descobre quase feto, que reconhece a necessidade do afeto, do abraço, do encontro.
Na verdade, poesia é mais ou menos como observar dois quadrados e três abelhas.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Conselho sobre qual curso escolher

Esse é um texto para você que está aí escolhendo seu curso. Se você acompanhar uns textos mais antigos do blog perceberá que é uma indignação antiga que carrego comigo sobre essa escolha que fiz, por isso me acho no direito de escrever algo assim hoje.
Bem, eu cursei Direito. Por que entrei nesse curso? Porque minha família achava que era bom, eu fui na onda. O que eu gostaria de ter feito? Jornalismo, Literatura, Sociologia ou Filosofia, mas não era bom o suficiente para alguns dos meus parentes, que pensavam que curso bom mesmo, era Medicina, Direito ou alguma Engenharia da vida, bem meus queridos, eu fiz.
O curso é tão ruim? Não é esse o caso, não era o meu curso. Não tinha paixão, nunca tive encanto com ele. Foi uma tortura assistir aquelas aulas, conviver com os alunos de Direito que falavam de que? De Direito é claro. Eu odiava cada segundo disso tudo. Meu refúgio foram algumas matérias introdutórias que geralmente ninguém gostava, que incluíam filosofia, sociologia e antropologia, posteriormente descobri a pesquisa em História dos Sistemas Jurídicos e aí melhorou mais, mas é conversa pra outro texto. O fato que quero mostrar aqui, é que não vale a pena sofrer fazendo algo que não te causa paixão. Na minha turma, tinham várias pessoas que estavam ali por estar, não sabiam o motivo além do "status" de fazer Direito. Eu não usei meu desgosto como justificativa para fazer um curso mal feito, eu conclui com boas notas e passei na OAB antes de concluir o curso, o que não mudou o fato de não gostar. É possível você sobreviver ao que não gosta, essa é a vida, mas não precisa ser assim. Você pode ter prazer no que faz, sonhar com aquilo, amar ouvir sobre o assunto. Não me pergunte de Direito, não me fale sobre as vantagens da advocacia, eu não suporto, tenho antipatia, sei fingir?  Sim, esse é o mercado do Direito, a atuação! Conheci e convivi com advogados, muitos que respeito, outros nem tanto, a regra geral é: atue! Finja se importar, finja, finja, finja! Como tudo é uma questão de perspectiva, talvez a minha esteja danificada por todos esses anos respirando essa fumaça tóxica das leis não cumpridas desse país, talvez seja o seu curso, talvez você possa amar o Direito. Contudo não aconteceu isso comigo, me arrependo tanto de não ter me imposto e ter lutado pelo o que eu acreditava. Hoje ainda há tempo de buscar meus objetivos, e tenho tentando fazer isso, mas algumas coisas que vivi não podem mais ser alteradas, por isso te escrevo a fim de que não entre nessa cilada familiar de fazer o que não quer ou não gosta. Faça o que você ama. Seja feliz trabalhando, o mundo precisa disso, não de gente que cursa algo por dinheiro apenas. Sua família vai entender, você não pode ser refém dos sonhos dos outros, não aceite essa posição, por você, por seu futuro, por sua saúde mental, não entre nessa onda de fazer algo porque alguém acha que é melhor pra você, acredite, não funciona! Eu estou aqui, juntando os pedaços do que eu sou para fazer o que amo, pode ser que me arrependa depois, mas é a minha escolha! Pagarei o preço com o maior prazer. Diferente do que faço com minha atual profissão, é um morrer diário. Uma labuta danada, para ser quem escolheram pra eu ser. Nem sempre os seus sonhos vão dar certo, mas o que resta é tentar e ser feliz durante o caminho, não apenas enquanto espera a chegada, porque a chegada pode ser mais infeliz do que o caminho. Enfim, fica a dica queridos, não se deixa levar. Quem é você? O que você gosta? Procure em você as respostas que são para você. Feche-se para balanço por um tempo, vale a pena.


sábado, 21 de janeiro de 2017

Conversa com o espelho


_Quando o decrescimento começa a fazer sentido para além das ideias de Peter Victor e seu país modelo. Decrescer em todos os sentidos, desfazer do que não se usa, do que não cabe mais, sejam ideias, roupas ou relacionamentos tóxicos. Para uma vida que é frágil e flerta com a morte constantemente, é preciso perceber seus sinais de socorro e proporcionar o decrescer.
_ Mas afinal, do que você está falando?
_Estou falando do que não se fala, do que não se ouve, do que eu sinto em mim.
_ Explique melhor, não compreendo.
_ Não compreenda, sinta. Apenas sinta minhas palavras. Eu sinto que preciso decrescer. Já não há prazer nas leituras, nem no sono, nem em nada. Tudo para mim se tornou obrigação, meta a ser cumprida com tempo e espaço determinados em planejamentos. Já não suporto mais esse peso invisível da existência. Decrescer é pausar, não retornar, apenas estabilizar por um instante. Na economia do Canadá está funcionando, já ouviu falar do Peter Victor?
_ Não, não ouvi e não entendo de economia.
_ Minhas motivações já não são boas, faço o que faço porque preciso fazer. Kant me condenaria, diria que não há mérito moral em nada disso, e não há mesmo. Já ouviu falar de Kant, não é?
_ Já, mas não sei nada dele também.
_ Não importa o que sabe, não importa o que eu sei. Importa geralmente o que eu não sei, e isso me atormenta. O prazer que não tenho tido nas conquistas, me sobra no desgosto pelos fracassos. O homem máquina brotou em mim, só quer acertos e quando não os tem, me pune sem piedade. É uma questão de perspectiva doente, eu estou doente, só pode ser. Você poderia me ajudar?
_ Não posso, me desculpe. Mas prossiga, é bom ouvir você.
_ Prosseguir para onde? Para quem? Onde eu estou? Eu queria respostas para as quais nem sei formular as questões. Há aflição e cansaço em cada canto meu, só vejo o que eu deveria fazer, saber, ou ser, deveria... maldita conjugação verbal, por que é tão complicado contentar-me com o presente? Você me entende?
_ Na verdade não. Mas fique à vontade, não é sempre que tenho companhia.
_ Eu só sei que preciso decrescer. Esquecer as letras, as inscrições, os editais, os resultados e pensar mais em ...você.
_ Só não me mate como acontece no "O homem feito" do Fernando Sabino. Não me mate, me deixa viver além do reflexo.
_ Deixarei. Vou decrescer, a decisão está tomada. Vou desacelerar e aprender um jeito melhor de viver você.
_ Feito.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

2016 e seus efeitos.

[Esse é um texto real.]
2016 foi um ótimo ano aos meus olhos. Claro que as palavras podem ter significações diversas, mas gostaria de ser o mais objetiva possível para descrever o que aprendi nesses dias e que isso possa de algum modo alcançar alguém e gerar bons sentimentos de paz e esperança.
Bem, foi um ano de desafios, daqueles de aprender a andar em uma corda bamba, quase caí de vez nesse percurso diversas vezes, mas Deus me ajudou a manter o equilíbrio e levantar depois de cada queda.
Conheci pessoas ótimas, que são felizes de verdade e respiram vida, não a afobação de uma vida corrida em busca de sucesso profissional ou dinheiro apenas, gente de verdade, que dorme, come e ri sem a ajuda de medicamentos ou às custas da dor de alguém. 
Aprendi que os sapatos mais bonitos e elegantes são aqueles que não causam dor ou desconforto aos meus  pés ( literalmente, e no sentido figurado também).
A comida mais saborosa é aquela que tenho tempo para sentar à mesa e saborear, sem a agonia de olhar incessantemente no relógio, como uma tentativa de controlar o tempo. Bem, não vou o controlar, no máximo o usar ao meu favor, ou contra mim e isso, é uma questão de... prioridades.
Digamos que minhas prioridades mudaram bastante esse ano, não como um big bang, mas como parte de um processo que reconheço de Deus em mim, as ferramentas nem sempre ficam à mostra, porém algumas delas eu posso perceber .
Nesse ano eu finalmente terminei a série Merlin, que é maravilhosa! Eu a comecei por volta de 2011, mas devido ao tráfego complicado de atividades na minha vida, não pude terminar, então concluí-la foi ótimo!  Além dessa série, também fui bem sucedida em alguns retornos e desfiz alguns nós que me incomodavam e foi ótimo!
Finalmente consegui superar meus limites e manter um ritmo constante de atividades físicas e correr 3km completos, sem parar! Uau! É uma grande coisa pra mim!
Consegui girassóis em casa!
Passei mais tempo em casa, com meus pais, com minhas cachorras e com meus livros de literatura e filosofia! Isso é tão reconfortante, como um chá que aquece o corpo antes de embalá-lo no sono.
E mais importante, foi um ano onde tive presentes tão especiais de Deus que me faltariam as letras para descrevê-los, momentos e conquistas únicas e infinitamente especiais.
Era pra ser um grande texto, mas vou encerrar por aqui, porque percebo que não há tanto assim pra ser dito, talvez muito a ser sentido e percebido, no entanto parece que é algo mais interno do que externo, o que demonstra que conforme o tempo passa, a gente fica mais sensível  e atento ao que realmente importa e isso não se estampa em nada, é essência, aroma, alma, ou simplesmente: vida.

Obrigada Deus por tudo, obrigada mesmo.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Sobre amizades

Geralmente as pessoas me perguntam se o blog é um diário ou algo semelhante. Não é. Aqui é só um depósito de textos, como um hobbie mesmo...
No entanto esse texto de hoje, é real.
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Há algum tempo atrás aprendi que Deus se importava com minhas amizades, por isso passei a orar por amigos que fossem Dele pra mim. E então veio o início dessa história.
 No começo do curso de Direito eu tinha um grupo de colegas e com o passar dos períodos, nosso grupo foi se diluindo, e ficamos: Ludmila, Sállua e eu. Somos completamente diferentes, mas de uma forma tão harmoniosa fomos nos ajudando mutuamente a terminar o curso e nossa amizade foi se solidificando, e hoje eu percebo que minhas orações foram atendidas, e meu coração se enche de alegria em saber que tenho amigas tão incríveis como essas duas.
Claro que tenho outros amigos especiais, mas é que elas são parte de um momento da minha vida muito peculiar, e foram muito usadas por Deus para me dar sustento.
No começo de tudo, a Lud era arredia com a gente, não fazia nenhum pouco questão de aprofundar os laços. A Sál (quase) sempre foi tranquila e pacificadora, um coração gigante do tamanho do mundo, e eu, bem, eu nunca sei me descrever. Depois com o tempo fomos nos conhecendo melhor e enfrentando problemas juntas, o gato da Lud sumiu e ela ficou bem triste uma vez, a minha avó morreu e depois a avó da Sál também. A Sál trocou de emprego, a Lud entrou em um estágio legal e eu também comecei a estagiar. A faculdade começou a ter umas aulas práticas, por conta disso muitas vezes saímos correndo da aula, comíamos um salgado lá perto da faculdade mesmo e íamos, a pé, de ônibus, debaixo de sol ou chuva, carregando aquele peso dos livros do curso de Direito. Era um tédio, a única graça é porque elas estavam juntas comigo. A gente ria muito, ainda que não tivesse nada de bom naquilo. Nesse percurso, eu fui desgostando do curso e certamente ter conseguido finalizá-lo foi por conta da ajuda delas, nos últimos períodos eu tinha mais sono do que vontade de prestar atenção nas aulas. Não lembrava de nenhuma atividade proposta e elas sempre estavam ali pra me socorrer. Quando passei na oab foi uma benção, um presente de Deus mesmo. Foi bem difícil conciliar a faculdade, morar sozinha, estágio, monitoria e TCC com os estudos para a oab, mas Deus me segurou pelas mãos e me deu minhas amigas, que foram fundamentais em tudo isso. Aprendi ( e aprendo) tanta coisa com elas que é difícil enumerar, desde truques na cozinha a Harry Potter.
Hoje o curso acabou, mas algo ficou de muito bom dele, minhas amigas, que eu amo muito porque percebo nelas o cuidado de Deus comigo. Hoje eu passei o dia com a Sállua, e antes de encontra-la eu estava muito feliz porque iria a ver, fiquei imaginando então o quanto Jesus anseia por se encontrar conosco, porque Ele nos fez seus amigos, se nós que somos mortais esperamos nossos amigos e queremos dar a eles o melhor que temos, pense o Senhor Deus! Com certeza Ele sente muito mais do que posso imaginar. Infelizmente hoje a Lud não pode se juntar a nós, mas em breve nos encontraremos de novo e ela estará junto. O que fica de todo esse relato é que muitas coisas na vida passam, mas aquelas essenciais só aprofundam suas raízes, e essas coisas não tem preço! Que Deus te permita experimentar de amizades tão leais e gratificantes como essas que Ele me deu e sou imensamente grata. 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Voltando ao ponto de partida.

E você retorna, desconsiderando as causas e efeitos desse (re)encontro. Tão você isso, tão eu não me impor. E toda a conversa do "nunca" se desfez diante de mim, e outra vez, a vulnerabilidade do risco ataca, me ataca.
E já é madrugada e pareço ter voltado para os tempos de ensino médio, ou no começo da faculdade, quando ficávamos acordados até muito tarde falando sobre nada, discutindo sobre tudo, mas hoje estou aqui sozinha no meu quarto, no meu apartamento, na solitude que escolhi pra mim. Apoiada no parapeito dessa janela, observando as luzes da cidade, com vontade de acender um cigarro, mas me lembro que isso não vai resolver nada, até porque eu  nunca fumei de verdade ( cigarros são detestáveis). Encaro essas luzes como gostaria de encarar você e te questionar sobre o motivo desse retorno. Sobre o motivo do não começo, que nunca me deu paz. Amizade ou namoro? Coisa estúpida que vivemos... Por que mexer nisso quando tudo já estava cicatrizado dentro de mim? Por que você sempre quer imitar uma fênix, ressurgindo das cinzas?  E por que, eu me curvo a isso, encenando que está tudo bem, que nunca senti nada, que nunca houve choro e nem raiva. Amigos, sua melhor amiga? É isso mesmo? Eu agora sou sua confidente sobre sua nova paquera, a menina com quem deseja assumir um relacionamento sério, se casar? Cretino. Como você é ridículo.
O vento começa a soprar devagar, quase brisa e me esqueço do horário, afinal, quem pode dormir sabendo que existe um fantasma em seu interior? Eu não consigo mais lidar... O lugar de encontro precisa ser também o lugar do desencontro, a fronteira que nos desafia a reassumir o espaço da nossa memória ferida, com aquele projeto de relacionamento que tivemos há anos atrás, que deveria estar morto dentro de mim, realmente devia. E aqui nessa fronteira, entre eu agora e eu antes, me olho nos olhos e não quero reconhecer esse sentimento que ainda vive por você. Nem sei o que pensar, sei que eu deveria não pensar, não te atender, não te ouvir e muito menos acreditar em você, porque pra mim a sua proximidade é risco, é inflamável. E o fogo me encanta, hipnotiza, sempre foi assim.
Hoje entendo que quanto a você, a saudade sempre foi meu lugar seguro. E a segurança agora foi tomada por lembranças e sentimentos há muitos anos afogados no tempo... E agora, o que fazer diante de toda essa bagagem encalhada na minha porta? Talvez eu devesse encarar de vez os reencontros e ressignificações da memória almática quanto a você... e tudo o que simboliza em mim. Ou, simplesmente dormir fora, em um lugar onde as luzes da cidade não fiquem acesas até tão tarde...