sexta-feira, 21 de abril de 2017

Sobre a casa verde

Hoje eu passei na porta da casa que minha avó morava. A casa ainda é verde, e eu quase a enxerguei saindo no portão com a mão na cintura e me olhando, como quem dizia, um oi tão saudoso que já me deixava feliz por estar ali.
Eu não pude continuar minha rota sem parar por alguns minutos e ficar encarando a casa, é como se ela ainda morasse ali, e eu estivesse apenas cumprindo mais um ritual de final de tarde, indo a ver e conversar sobre meu dia e saber do dela.
Ainda dá pra ver o pé de jabuticaba no fundo do quintal, onde eu cresci brincando de tantas coisas. A casa continua ali, na mesma esquina, do mesmo jeito. Mas ela não está mais aqui, já são três anos sem ela. Três anos sem ouvir a risada e nem as broncas, sem saber o que é ter alguém que me dê aquela segurança que só ela sabia dar. Eu sei que ela está com o Pai na eternidade, e isso é lindo sabe? Mas a saudade dói, porque minha avó era o elo mais forte que eu já tive com alguém, eu não sei explicar muito bem, mas ela me decifrava só com o olhar. É aquela espécie de amor de alma, que a gente não consegue muito bem entender, só sentir. Hoje especialmente doeu olhar para aquele lugar e encarar o vazio imenso que ela deixou em mim, em nós. E esse texto é só um desabafo mesmo e um alerta para quem às vezes se esquece que as pessoas são finitas, e que no céu não tem telefone. Eu não tenho foto dela comigo, nem acredito que ela esteja aqui comigo, nada disso; contudo eu tento a honrar ao máximo com minha memória, viver o legado da fé que ela me deixou e tentar ser uma mulher tão forte quanto ela. A saudade é um lugar que somente quem amou pode pisar, e hoje especialmente, eu me deixei preencher por ela... ao som de Pedro Valença, Saudade.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Sobre poesia, abelhas e a saudade.

(Era uma aula de História, Memória e cultura. Um tema que me agrada, mas nesse dia, mais interessante do que aula em si, eram as três abelhas que estavam na janela em cima do meu lugar. Elas estavam em um drama existencial, tão grave quanto o meu, por isso o poema.)

Poesia é estar tão perto, considerando o longe.
É valorizar as fronteiras, até que anulem os encontros.
Poesia não é círculo, é quadrado que separa, isola e obriga à solidão.
É gerar no ser a sensação de ser presa de.
É impor o peso do sentir.
E assim digo que poesia é o ato de eclodir a vulnerabilidade do ser, que apesar de velho, se descobre quase feto, que reconhece a necessidade do afeto, do abraço, do encontro.
Na verdade, poesia é mais ou menos como observar dois quadrados e três abelhas.