sábado, 21 de janeiro de 2017

Conversa com o espelho


_Quando o decrescimento começa a fazer sentido para além das ideias de Peter Victor e seu país modelo. Decrescer em todos os sentidos, desfazer do que não se usa, do que não cabe mais, sejam ideias, roupas ou relacionamentos tóxicos. Para uma vida que é frágil e flerta com a morte constantemente, é preciso perceber seus sinais de socorro e proporcionar o decrescer.
_ Mas afinal, do que você está falando?
_Estou falando do que não se fala, do que não se ouve, do que eu sinto em mim.
_ Explique melhor, não compreendo.
_ Não compreenda, sinta. Apenas sinta minhas palavras. Eu sinto que preciso decrescer. Já não há prazer nas leituras, nem no sono, nem em nada. Tudo para mim se tornou obrigação, meta a ser cumprida com tempo e espaço determinados em planejamentos. Já não suporto mais esse peso invisível da existência. Decrescer é pausar, não retornar, apenas estabilizar por um instante. Na economia do Canadá está funcionando, já ouviu falar do Peter Victor?
_ Não, não ouvi e não entendo de economia.
_ Minhas motivações já não são boas, faço o que faço porque preciso fazer. Kant me condenaria, diria que não há mérito moral em nada disso, e não há mesmo. Já ouviu falar de Kant, não é?
_ Já, mas não sei nada dele também.
_ Não importa o que sabe, não importa o que eu sei. Importa geralmente o que eu não sei, e isso me atormenta. O prazer que não tenho tido nas conquistas, me sobra no desgosto pelos fracassos. O homem máquina brotou em mim, só quer acertos e quando não os tem, me pune sem piedade. É uma questão de perspectiva doente, eu estou doente, só pode ser. Você poderia me ajudar?
_ Não posso, me desculpe. Mas prossiga, é bom ouvir você.
_ Prosseguir para onde? Para quem? Onde eu estou? Eu queria respostas para as quais nem sei formular as questões. Há aflição e cansaço em cada canto meu, só vejo o que eu deveria fazer, saber, ou ser, deveria... maldita conjugação verbal, por que é tão complicado contentar-me com o presente? Você me entende?
_ Na verdade não. Mas fique à vontade, não é sempre que tenho companhia.
_ Eu só sei que preciso decrescer. Esquecer as letras, as inscrições, os editais, os resultados e pensar mais em ...você.
_ Só não me mate como acontece no "O homem feito" do Fernando Sabino. Não me mate, me deixa viver além do reflexo.
_ Deixarei. Vou decrescer, a decisão está tomada. Vou desacelerar e aprender um jeito melhor de viver você.
_ Feito.

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